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Texto: Ana D’Arce
Fotos: Divulgação
Enfim uma brecha na agenda para conferir a 14ª edição do Fe stival Internacional de Música Avançada e Arte Multimídia de Barcelona. Alegria maior ainda, pois desta vez teria tempo para checar o tão comentado Off Sónar, ou seja, as festas que tomam conta da cidade no período do festival.
Desembarquei em Londres alguns dias antes e, como o universo conspira, a DJ Mag daquela semana trazia um roteirão do que de melhor aconteceria na capital da Catalunha. Alguns se queixaram da invasão inglesa no gramado do Sónar Village, outros colocaram mais lenha na fogueira da disputa entre ingleses e alemães pela primazia das melhores festas do Off Sónar. Particularmente, acho que os franceses correram por fora e levaram uma boa vantagem com o back-to-back surpresa de Miss Kittin e The Hacker na praia de Mar Bella abrindo para o badalado produtor sueco de deep e tech-house, Martinez. Além disso, Miss Kittin, que tocou e cantou (claro!) no Sónar Club, no sábado à noite, participou na noite seguinte da abertura do projeto Liquid, festa que rola durante todo o verão num lindo complexo de piscinas. Com um visual privilegiado da cidade, é uma das locações mais incríveis que conheço.
Já na quarta-feira os clubes estavam fervendo e o escolhido foi o pequeno Moog, nas Ramblas, que, como o Macarena e o Bar 13, fica no sub-solo e se livra da fúria impiedosa da polícia contra qualquer barulho que incomode vizinhos. Fúria esta que deixou fechada por duas temporadas a La Terrazza, destino certo na noite de quinta, onde o selo Soma promovia sua festa. Aqui, o primeiro encontro com Lars Sandberg aka Funk D’Avoid, autor da cultuada frase (que até virou camiseta) “Dane-se Berlim, Barcelona tem praia“. Naquela noite, este DJ escocês radicado em Barcelona há oito anos já havia tocado num festival paralelo que rolava no Fórum e seguia para o Mephisto, talvez o club mais heterogêneo da cidade onde Andy Cato, do Groove Armada, estava apresentando seu aplaudido set de house. Na Terrazza, Lars abriu a noite para Silicone Soul, Slam e o maravilhoso live de Alex Smoke (dica preciosa de Lars).
Para se ter uma idéia da intensidade do Off Sónar, nesta mesma noite tinha Marco Carola, Misstress Barbara e turma no City Hall; M.A.N.D.Y e DJ T no gigante Razzmatazz; festa da Tresor no Moog e festa da Gigolo no Nitsa, onde nosso querido Renato Ratier tocou com o big boss do selo alemão, DJ Hell. E estou só citando algumas das baladas da quinta-feira.
Graças a Deus chegou sexta-feira e as tão aguardadas festas na praia. Como já havia conferido um set do Luciano num Chiringuito no San Joan de 2005, estava ansiosa para balançar o esqueleto de frente para o Mediterrâneo. E não me decepcionei. Ellen Allien arrastou uma multidão para Nova Mar Bella e, ao lado de Sasha Funk e Kiki, mostrou todo o poder do seu selo BP tich. Na volta, parada obrigatória na Milk Bottles in the Sand, mais uma festa da Soma, desta vez com Lars comandando as carrapetas na areia com suas inconfundíveis havaianas. Você sabia que um par de havaianas lá chega a custar fácil 30 euros?! E nem precisa ser um modelo top.
Mas, e o Sónar? Continua sendo um dos mais inovadores festivais do mundo com um enfoque todo especial para tecnologia. Nesta edição de 2007, o maior destaque do Sónar Dia, onde arte multimídia e música avançada são o ponto forte, foi, sem dúvida a mostra Et Voilá! no SonarMatica. Com o tema entretenimento e surpresa, mágica e tecnologia se uniram para encantar o público. A deliciosa Shadow Monster, do inglês Philip Worthington, surpreendia ao transformar em versão digital a tradicional sombra chinesa. A cada movimento uma forma inusitada se colava a sua sombra e em cada encontro com a sombra do outro, mais surpresas. Diversão garantida para marmanjos rebolantes diante de um simples painel de luz.
Os japoneses, que há muito invadiram os palcos do Sónar, criaram peças encantadoras e divertidas como os Virtual Brownies, figurinhas humanóides que teimam em arrastar uma caixa de chá. Na real, esta se encontra só sobre a mesa e, a cada mudança de posição da caixa provocada pelo público, uma reação inesperada dos duendes podia ser vista no visor. Havia ainda uma área de levitação com as instalações Ballon Exploration e a Light Bulb. Explorando mais a interação com o público, o Portray the Silhouette surpreendia com sombras (sim, as grandes estrelas desta mostra) recriando de forma tri-dimensional a imagem de um homem, um bule e uma xícara. Desta ilusão perfeita, o inevitável diálogo entre o ser humano real que se senta para tomar uma xícara de chá servida pelo personagem virtual projetado na tela.
O enorme pavilhão da Fira Gran Via lotou na sexta-feira à noite. Uma multidão chegou cedo para prestigiar o show memorável dos veteranos Beastie Boys. Bastante vigorosos no palco mostraram um pouco do novo trabalho instrumental, que tem arrancado elogios da crítica, e fizeram a platéia pular e vibrar com hits clássicos. Sucesso absoluto no Sónar Club. Esta energia continuou em alta com o set miscelânea dos alemães Modeselektor, que se seguiu, elevando às alturas o espírito festivo da pista com uma mistura dançante de glitch, electro e hip hop. No Sonar Lab, espaço para onde foram transferidos os tradicionais e imperdíveis carrinhos de bate-bate, Kode9 & The Spaceape trouxeram o tão comentado dubstep, a novidade inglesa em termos de vanguarda musical mescla dub e minimalismo numa versão futurista dos sound systems jamaicanos.
Essa noite teve mais dois momentos grandiosos, apesar da ausência do esperado show de New Young Pony Club e da decepcionante apresentação das japonesas do Romantica, onde faltou sex appeal, pelo menos aos olhos brasileiros. O primeiro foi o set animadíssimo do Justice para uma pista mega lotada. A dupla formada por Gaspard Auge e Xavier de Rosnay, que esteve no Brasil em 2005 a convite da Jack Daniel’s, confirmou a aura de nova estrela da dance music. Com o palco cheio de amigos mais animados até que a pista, o set fechou de modo espetacular o show case do selo Ed Banger e marcou mais um ponto de vantagem para os franceses nesta temporada. O outro momento inesquecível deste Sónar Noite foi o set impecável de Richie Hawtin, conduzido com sua costumeira maestria, formando o melhor encontro com o trabalho dos VJ s alemães do coletivo Pfadfinderei. O enorme telão de led atrás do top DJ criava imagens de lirismo ímpar.
O pós-punk eletrônico, new wave do Devo eletrizou fãs fiéis no início da noite de sábado. Este foi o primeiro show em 17 anos do grupo americano, que encontrou um Sónar bem menos cheio que na noite anterior, o que garantiu muito conforto e, pelo menos para mim, muito mais diversão. Do freak show do Devo segui para o Sónar Pub para acompanhar a estréia cool do produtor Matthew Dear nos microfones. Autor de um dos maiores hits de 2004, a deliciosa New Year’s Dog, montou o trio Matthew Dear Big Hands onde canta e pilota seus laptops acompanhado de Mark Maynard (bateria e percussão) e John Gaviglio (baixo). Se não chegou a ser genial como anunciado, encarnou muito bem o rock lover numa excitante base de techno.
Continuando no clima sofisticado que dominou o Sónar Pub, o veterano Dixon embalou a pista com um set perfeito de house music da maior elegância. E assim, ficou quase impossível deixar esta pista inaugurada no passado, enorme e a céu aberto, com uma iluminação psicodélica e quente envolvendo todo o público. Chateau Flight deu continuidade ao deleite sob as estrelas, cortado apenas por uma fugida rápida para conferir o set do mestre Jeff Mills no caldeirão quente e abarrotado do Sónar Club. De volta ao house e à brisa fresca de Barcelona, mais uma ótima dica de Lars Sandberg me encantou: a dupla Ame. Mixando techno e house com freestyle, são considerados os grandes responsáveis pelo retorno do deephouse às pistas. E, na certeza de ter sido uma das melhores noites que já curti, fui me despedindo de mais um Sónar.