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Edição #95

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Marcelo Gleiser

Texto: Bruna manzano Fotos: Claudia Kamergorodski, frederico neves e Joseph mehling

Como cientista, ele ganhou prêmio na Casa Branca. Como escritor, recebeu dois Jabutis. Um roteiro de cinema dele circula por Hollywood. Ele ainda faz palestras em cruzeiros e inspira a nova geração de brasileiros.

marcelo é físico, astrônomo, professor, escritor, roteirista e colunista brasileiro. Conhecido nos eua por seus ensinamentos e pesquisas científicas, no Brasil é mais popular por suas colunas de divulgação científica na folha de são paulo. escreveu dois livros de não-ficção. o primeiro best-seller, “a dança do universo”, já vendeu quase 70 mil exemplares. os direitos do segundo, “o fim da terra e do Céu”, foram comprados pelo diretor global luiz fernando Carvalho para virar uma minissérie. Judeu, freqüentou a sinagoga quando criança, mas hoje se declara não-observante e ateu. Já participou de programas de televisão do Brasil, dos eua e da inglaterra, entre eles, o globo Ciência. atualmente, passou a ser membro convidado da academia Brasileira de filosofia.

Quando criança, morando no rio de Janeiro, gostava de tocar violão, e não se interessava por matemática. no entanto, inverteu essa situação depois que seu pai isaac, dentista, o convenceu de que a música não era seu caminho. no entanto, não teria feito física se seu irmão mais velho, luiz gleiser, não o tivesse alertado para fazer o que quisesse e não, o que o pai mandasse. Conselho seguido, ele fez física. atualmente, ele vive em hanover, no estado de new hampshire e, é o professor mais popular do dartmouth College, renomada universidade americana, onde ministra a disciplina “Física para Poetas”, que é incrivelmente popular. Essa disciplina atrai pessoas que não possuem ligações com a física. As aulas se caracterizam por relatos da história da ciência e dos cientistas juntamente com explicações sobre os fundamentos da física no laboratório através de experiências.

É pai de três filhos que vivem na ponte aérea entre Chicago, onde vive a mãe, e Hanover, onde Gleiser mora. O mais velho Andrew, de 17 anos, é fascinado pelo Japão. Fala japonês e, atualmente, faz intercâmbio no país. Eric, de 13, mora com o pai e é considerado um “geniozinho”, uma vez que, cria os próprios jogos de videogame. Tali, de 10 anos, é vegetariana e quer ser cantora de punk-rock. Nos finais de semana, Gleiser gosta de remar caiaques pelos rios e lagos da região, além da fazer a manutenção da casa, cortar a grama e lavar roupa. Para manter a forma, corre 8 km três vezes por semana, faz alongamento outras três para amenizar um problema na coluna e tem duas aulas semanais de ioga numa academia. Campeão brasileiro de vôlei em 1975, seu levantador era Bernardinho, técnico da nossa seleção masculina. Desde a juventude, Gleiser sempre se dedicou aos esportes. Em 2006 apresentou um bloco no programa dominical Fantástico, da Rede Globo, entitulado “Poeira das Estrelas”. O programa falava sobre ciência, mantendo o foco na astronomia.

Marcelo Gleiser é um cientista que fala de forma poética e filosófica de ciência para o mundo. E fala de forma inteligível, para que todos possamos encontrar significados e conexões que vão muito além de nossa limitada percepção sensorial do mundo natural. público brasileiro tem muita fome de saber; as pessoas são fascinadas por questões científicas. O que falta ser descoberto é que ciência vende. Dado que nos últimos anos temos as revistas National Geographic, Scientific American, Galileu e Superinteressante, parece que a ficha caiu.

Você tem uma coluna na Folha de S. Paulo e escreveu livros para divulgar a ciência. Como você acha que está a divulgação científica no Brasil? Você a considera satisfatória? Qual a sua importância para uma nação como o Brasil?

A divulgação científica no Brasil ainda tem um espaço muito grande para crescer. Diria que está ainda na sua infância, mesmo que muitos pioneiros tenham dedicado décadas de suas vidas à ela. Essencialmente, falta espaço principalmente na TV. Jornais como a Folha e muitas revistas já fazem divulgação científica. Mas na TV, fora o canal Futura e a TV Globo com o Globo Ciência, existe muito pouco. A iniciativa do programa Fantástico de dedicar algumas séries à ciência é muito importante. O que aprendemos é que o público brasileiro tem muita fome de saber; as pessoas são fascinadas por questões científicas. O que falta ser descoberto é que ciência vende. Dado que nos últimos anos temos as revistas National Geographic, Scientific American, Galileu e Superinteressante, parece que a ficha caiu

A importância disso é enorme; um povo sem educação científica não pode decidir seu futuro de forma adequada. Existem questões cruciais que necessitam de informação científica: engenharia genética, aquecimento global, energias alternativas, a questão da ciência e da religião… e outras mais abstratas. Fora isso, a ciência gera tecnologia; um país desinformado cientificamente será sempre dependente tecnologicamente.

Como é vista a Física brasileira no cenário internacional? Ela tem crescido ou somos ainda coadjuvantes nesta ciência no cenário mundial?

A física brasileira é disparado a de maior impacto da América Latina. Apesar de não termos ainda um prêmio Nobel, temos inúmeros cientistas brasileiros de renome internacional, vencedores de outros prêmios também importantes. Mas precisamos ainda crescer muito. E isso depende em grande parte do investimento do governo na educação e na formação de jovens cientistas.

O ensino de Física nas escolas brasileiras é extremamente desmotivante, já que muitos alunos não gostam ou não se sentem motivados a aprender esta disciplina. De que maneira você acha que se deveria ensinar a Física nas escolas?

Este não é um problema exclusivamente brasileiro. Na maioria dos países e das escolas a física é ensinada de forma chata, especialmente nos primeiros anos, que é justamente quando deveria ser ensinada da forma mais entusiasmante. O que falta? Falta ilustrar o que é aprendido na sala de aula com demonstrações e experimentos; as pessoas adoram ver para crer. Esse é um aspecto essencial da ciência, que tenta descrever os fenômenos da Natureza. Como gostar de ciência sem ver o que ela tenta explicar? Não dá para fazer tudo no quadro negro. Fora experimentos na sala de aula e laboratórios, os professores deviam levar as crianças a passeios, mostrando a ciência das coisas do dia a dia; o vento, as nuvens, o reflexo na água, a cor do céu e do Sol, o oscilar das folhas, tudo isso é física…

Você achou correto a retirada de Plutão como planeta de nosso Sistema Solar?

Sob o ponto de vista científico, achei. Ele é mesmo um corpo celeste que não acredito deveria ser considerado um planeta; menor do que a nossa Lua, com órbita inclinada em relação aos outros planetas, e outras coisas. Mas as pessoas gostam de Plutão (especialmente as de Escorpião, já que Plutão é seu planeta regente…) Acho que a decisão deveria ter levado isso em consideração; tudo bem, Plutão não é um planeta de verdade mas, por motivos históricos, permanece classificado como tal. A exceção poderia ter sido feita…

O que é a teoria do Big-Bang? Foi realmente uma explosão que originou o Universo? Existe alguma confirmação experimental sobre tal teoria? Existem outras teorias, além do Big-Bang que explicam a origem do universo?

Essa pergunta é enciclopédica! Aliás, escrevi um livro inteiro sobre o assunto, A Dança do Universo. (Ou o Poeira das Estrelas, o livro da série do Fantástico.) O Big Bang marca o momento em que o tempo começou a passar no nosso universo; há 13,8 bilhões de anos, a matéria estava concentrada em uma região minúscula a altíssima pressão e temperatura. Resultado, ela começou a se expandir e a se resfriar. A coisa toda foi meio explosiva, daí a noção do Big Bang como uma explosão. Só que explosão pressupõe um detonador e o Big Bang não teve nenhum… O modelo foi sim confirmado experimentalmente de várias formas; mais importante, ele prevê a existência de uma radiação espalhada por todo o cosmo, resultado da época em que átomos foram formados. Essa radiação foi descoberta com as propriedades previstas pelo modelo. O universo teve mesmo uma infância dramática! Nenhuma outra teoria explica as observações tão bem.

Você acha que a física ou a cosmologia podem adentrar em uma questão tão polêmica como a origem do Universo ou se trata de assunto somente da metafísica?

Não só podem como já entraram! Hoje, temos modelos matemáticos de como surgiu o universo, isto é, de como eram as coisas na época do Big Bang. Essencialmente, tudo surgiu de uma flutuação de energia a partir do nada. Essa flutuação não teve causa alguma, simplesmente ocorreu. Dela, surgiu o cosmo.

Muito se fala em energia e matéria escura? O que seria isto? Como explicar a expansão do nosso universo?

São duas coisas diferentes. Matéria escura é matéria que não emite luz. Você, leitor, é matéria escura, planetas também. No entanto, a quantidade de matéria escura que existe no universo é muito maior (umas 6 vezes maior) do que a matéria da qual eu e você somos feitos, isto é, composta de átomos. Ou seja, existe um tipo de matéria no universo que tem massa, mas não tem nada a ver com os elétrons e prótons que conhecemos. Ninguém sabe do que a matéria escura é formada; sabemos que existe porque podemos medir seus efeitos gravitacionais na matéria comum, como as estrelas.

A energia escura é ainda mais estranha; é uma espécie de anti-gravidade espalhada pelo espaço que faz com que o universo expanda de forma acelerada. Foi descoberta apenas em 1998, e ninguém sabe o que ela é ou por que contribui 3 vezes mais do que a matéria escura para a energia total do cosmo. São esses mistérios que tornam a pesquisa em cosmologia tão fascinante!

Existe um preconceito muito grande em nossa sociedade com pesquisas muito teóricas, que não têm nenhum efeito prático e de modificação, pelo menos instantânea, para nossa sociedade. Como modificar isso? Qual a importância das pesquisas em astrofísica e cosmologia para nossa sociedade?

Acho que de tudo um pouco. Pode-se dizer o mesmo das artes plásticas ou da literatura. No entanto, precisamos delas para entender quem somos. O mesmo com a ciência mais abstrata; ela lida com questões de grande importância cultural e estética. Uma pessoa do século XV pensava de forma muito diferente duma do século XXI. Muito dessa diferença vem da nossa visão cósmica, isto é, de como vemos o cosmo em que vivemos e qual o nosso lugar nele.

Fora isso, quem pode prever se a pesquisa abstrata pode vir a ser útil? Quando os pioneiros do estudo do átomo pesquisavam no início do século XX jamais podiam imaginar que toda a revolução digital seria baseada em suas descobertas…

Quais os avanços e revoluções esperados com a nanotecnologia?

Outra pergunta enciclopédica! Da nano esperasse a fabricação de máquinas e robôs submicroscópicos. Desde a produção de remédios a partir da manipulação direta das moléculas até a implantação de robôs na corrente sangüínea para a extirpação de tumores e outros males, as aplicações são imensas. E fora a medicina, o mesmo com aplicações industrias. É uma nova fronteira da engenharia e da física, que promete miniaturizar tudo ainda mais… Em breve teremos supercomputadores de bolso e olhos biônicos!

Tem-se observado a união de diversas ciências: física e biologia, física e economia, física e química, física e geologia… Por que a física tem essa amplitude de unificação com outros assuntos?

Porque ela lida com questões fundamentais, procurando pelas leis gerais que regem o funcionamento da Natureza, das partículas subatômicas às galáxias e ao Universo com um todo. Para fazer isso, físicos constroem modelos matemáticos que descrevem fenômenos e comportamentos os mais diversos. É essa capacidade de criar modelos descritivos e com poder de predição que dá à física sua versatilidade.

O que seria a pró- cura?

Seria você, através da sua busca, se auto-curar, isto é, fazendo o que gosta, encontrar motivação para construir uma vida criativa e emocionante. Quem me disse isso foi o Hélio Pelegrino, numa consulta em torno de 1980. Foi a primeira e a última que tive com ele…

O que você poderia falar hoje sobre o futuro da anti-matéria?

Que ela não vai ser usada para explodir o Vaticano como sugere Dan Brown no “Anjos e Demônios”. A anti-matéria aparece sempre em experimentos na área da física de partículas e não tem nada de misteriosa: cada partícula tem sua irmã anti-partícula, essencialmente a mesma partícula com carga elétrica oposta. Só isso. O mistério é que anti-matéria é muito rara. Essa é a questão que estamos tentando entender, porque anti-matéria é tão rara no nosso universo.

O filme “De Volta para o Futuro” trata de situações de viagens no tempo. É possível viajar no tempo?

Segundo a teoria da relatividade, só é possível viajar para o futuro; para o passado não dá, o que não é de todo mal. Já pensou se as pessoas pudessem voltar ao passado? Poderiam sempre concertar os seus erros, o que implicaria numa total falta de responsabilidade no presente… “Ah, se der errado ou se fizer besteira depois dou um jeito!”

Milhões de dólares são e já foram gastos na conquista espacial e em viagens espaciais. Qual é sua real importância para a humanidade?

Qual foi a importância das explorações marítimas do século XVI e XVII? Diria que reescreveram a história da humanidade, tanto por razões políticas quanto econômicas. E custaram também muito caro. Nossas explorações espaciais estão apenas engatinhando… ao descobrir novos mundos aprendemos sobre o nosso, aprendemos sobre nossas origens e, eventualmente, poderemos transformar essas aventuras em atividades rentáveis, seja na mineração como no turismo espacial. Diria que nosso destino é colonizar a galáxia, espalhar vida pelo cosmo. E, quem sabe, até encontrar outras formas de vida pelo caminho.

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